01/05/2007 - Os rios urbanos

A relação do homem com os rios é milenar. A civilização egípcia, primeira grande civilização que se tem notícia, desenvolveu-se às margens do rio Nilo, o qual propiciava o cultivo de alimentos em uma região muito árida. Há mais de três mil anos os egípcios tratavam seu esgoto em lagoas de decantação, com a ajuda do junco, antes de despejarem no Nilo, porque já entendiam que sua existência dependia da qualidade da água do rio.
Quase todas as cidades brasileiras são cortadas por ao menos um rio e isso não acontece por acaso. Durante o período das bandeiras a navegação fluvial era o principal meio de transporte em direção ao interior. Os rios que cortam nosso território permitiram que homens, munidos de coragem e espírito aventureiro, adentrassem pelo Brasil em busca de ouro, no caminho fundavam povoados que só sobreviviam por estarem junto de um curso d´água.
Grandes rios como o Amazonas, Cuiabá e Tietê marcam a paisagem brasileira. Ao longo de suas margens se desenvolveram grandes cidades, que atraíram grandes populações. Apesar de terem promovido o desenvolvimento de muitas regiões e, na maioria dos casos serem vitais à sobrevivência das cidades, a relação dos brasileiros com os rios não tem sido harmoniosa, eles freqüentemente são associados a grandes problemas urbanos como enchentes e doenças.
A verdade é que os rios tem sido muito maltratados, as cidades preferem ignorar o potencial paisagístico que eles oferecem e freqüentemente fazem obras de tamponamento e impermeabilização de suas margens. Durante toda a década de setenta existiu um fundo do governo para financiar a construção de avenidas de fundo de vale, fato que promoveu a ocupação indevida das margens de muitos rios. É desse período a construção das avenidas marginais dos rios Tietê e Pinheiros na cidade de São Paulo, o que acabou ocasionando os problemas que  vivenciamos atualmente, fazendo-se necessária uma quantidade infinita de recursos para amenizá-los. A cidade de Jundiaí não foge à regra, seus principais rios, Jundiaí e Guapeva, são margeados por avenidas e aprisionados por muros de concreto, que foram construídos posteriormente para resolver o problema das constantes enchentes.
Jundiaí, assim como inúmeras cidades, possui também um número significativo de pequenos rios e córregos. Muitos desses são lembrados apenas nos períodos de fortes chuvas, pois se tornam notícias de jornais devido às inundações. Isso ocorre porque a cidade que apresenta um alto índice pluviométrico associado à degradação ambiental, com áreas densamente construídas e impermeabilizadas, transforma-se em um escudo à prova d´água, no qual a água é incapaz de penetrar no solo. As águas escoam pela superfície cada vez mais rápido e em quantidades cada vez maiores. O tamponamento dos córregos e a impermeabilização das margens contribuem também para o fenômeno das "Ilhas de calor", o que aumenta o problema das chuvas torrenciais e provoca mais enchentes.
Precisamos encarar nossos rios e córregos de outra maneira, não como o "esgoto" que deve ser tubulado, mas como elementos que podem tornar a paisagem urbana muito mais agradável. A criação de parques lineares junto aos cursos d´água possibilita que a água escoe de maneira mais lenta evitando inundações, torna o microclima urbano muito mais agradável diminuindo também a quantidade de chuvas torrenciais.
Não podemos nos esquecer que a preocupação com o desenvolvimento da população global e com a qualidade da água tem sido uma preocupação expressa em políticas públicas internacionais e nacionais, visando garantir o acesso universal a esse recurso indispensável e cada dia mais escasso no planeta. Os países desenvolvidos já estão realizando obras de renaturalização dos cursos d´água, restabelecendo na medida do possível o curso natural dos rios e revegentando suas margens. É um trabalho multidisciplinar e tem que envolver toda a comunidade.
Não podemos mais nos contentar com projetos que maltratem nossos rios e córregos, temos que exigir do poder público e da iniciativa privada projetos e obras que contribuam para a preservação desse recurso tão valioso à vida humana, que é a água.

Rafael Benassi é arquiteto e urbanista, pós-graduando no curso de especialização em "Desenho Ambiental e Arquitetura da Paisagem" na Universidade Presbiteriana Mackenzie; da Comissão de Apoio Profissional e do Projeto Jornal do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Núcleo de Jundiaí.
rafael@santangela.com.br