02/01/2007 - a arquitetura e o espaço litúrgico cristão

“Também pela arquitetura Deus pode se comunicar: sua grandeza, sua beleza, sua harmonia, sua bondade”
Pe. Gregório Lutz

O espaço da liturgia sempre foi sinal das coisas celestes. É a forma que Deus encontra para deixar o invisível, visível.
Deus comunica-se com seu povo através de sinais sensíveis. O projeto de uma igreja deve sempre contemplar esta idéia. Todo espaço litúrgico é iconográfico, isto é, está carregado de sinais, de simbologia.
Encontrar formas arquitetônicas que exprimam os conteúdos conforme a visão da Igreja Católica é um desafio, para o arquiteto,  possível de ser alcançado através de uma criatividade aberta à espiritualidade. O arquiteto deve acolher o sentido religioso cristão e traduzi-lo em soluções  espaciais adequadas  às exigências da liturgia.
A fim de garantir sua significância plena, o projeto arquitetônico de igreja deve seguir as orientações dos documentos da Igreja Católica, principalmente aqueles que advêm da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II; deve considerar as características da comunidade que celebra o Mistério de Cristo e, também, a tradição da Igreja Católica Apostólica Romana.
A ação litúrgica requer do espaço arquitetônico: praticidade - as celebrações se desenvolvam da melhor maneira possível; harmonia entre a assembléia e o presidente da celebração e participação efetiva de todos.
Assim, uma arquitetura diferenciada e envolvente deve evidenciar em sua estética a união entre: o visual de uma arquitetura que reflita o seu tempo; o edifício que se propõe a ser solidário (acolher todas as pessoas através da linguagem universal da beleza) e a busca do espaço da oração como forma de comunicação com o transcendente.
No contexto católico, esta arquitetura deve ser sempre de serviço e não de poder, caracterizando-se por um espaço de comunhão que acolha os fiéis participantes. Ela deve convidar aqueles que se encontram afastados dela  e anunciar, a todos,  a misericórdia de Deus através de formas as quais não busquem o luxo e a riqueza, mas a dignidade. Neste sentido, as expressões da arquitetura do espaço litúrgico tornam-se anunciantes do divino pela Verdade e Beleza que exprimem.
Arquitetura, decoração, pintura, escultura, vitrais, alfaias, vestes, móveis, luzes e som devem estruturar essa entidade orgânica que, vitalizada pela ação litúrgica, gera um universo ordenado ao culto e ambientado à comunidade dos fiéis, compondo um sistema narrativo coerente e compreensível.
No externo do edifício, as formas arquitetônicas e o som dos sinos, por exemplo, são elementos narrativos pelos quais se anuncia a presença de Deus. Se a igreja for paroquial, é vital  pensar, também, nos ambientes anexos, nos edifícios de serviços caritativos, nos lugares de socialização, nos ofícios pastorais e outros.
Portanto, o arquiteto deve ser capaz de projetar um “organismo vivente”, animado pela comunidade dos fiéis, e, através do espaço, predispor a pessoa a uma experiência de Fé. Ao criar, na autonomia da invenção, arte e arquitetura dedicada ao sagrado, o arquiteto deve ter em mente que sua obra  tem uma finalidade litúrgica para a qual o prazer estético não é puramente recreativo ou lúdico, mas humanizante e espiritualizante.
Esta semana a Diocese de Jundiaí comemora seus 40 anos de fundação. Deus foi sempre muito generoso, derramando sobre a comunidade católica de nossa Diocese suas bênçãos e, pela beleza de sua história, tem possibilitado que seus filhos contemplem belas obras de arte sacra. Em cidades que compõem a Diocese como Itu, Santana de Parnaíba, Bom Jesus de Pirapora e mesmo Jundiaí, através de suas igrejas, Deus torna o invisível, visível pela arquitetura e pela arte.

Autora:
Mônica Bevilacqua Romano – Arquiteta
Membro do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), núcleo de Jundiaí.
Membro da CBCI (Comissão para os Bens Culturais da Igreja) da Diocese de Jundiaí
Membro da CBCI do Regional Sul I (Estado de São Paulo) da CNBB
monicarq@terra.com.br