Quem casa quer casa, diz o ditado. E assim foi com minha amiga Isabel. Nos anos 40 casou-se e encomendou sua primeira morada a um amigo arquiteto. Acabou fazendo história: a casa - um dos pioneiros projetos do arquiteto paulista Vilanova Artigas - é identificada como Residência Rivadávia de Mendonça nas publicações sobre o autor. O casamento de Isabel não durou tanto tempo, mas a casa, ah... Ainda está lá, testemunhando as mudanças no perfil do bairro do Pacaembu.
A casa era um espetáculo de amplidão, de luz. De tudo!, lembrava Isabel que, aos poucos, foi reaquecendo sua memória e recordando os espaços, o jardim, as janelas, os móveis, as cores... O projeto, antes de virar realidade, era uma idéia traçada e retraçada pelo arquiteto. E foi assim. Ele pegou um lápis, um papel e começou a desenhar o perfil da casa... A casa estava começando a ser construída. As meninas não sabiam, não. Minha filha mais velha - a Elza, tinha quatro anos na época - ficou vendo ele desenhar. Olhou, olhou...
Quando ele parou, disse assim: "_Essa aqui é a sua casa!". Ela olhou pro Artigas e retrucou ofendida: "_Mas isso não é uma casa. Isso é um sofá!". O Artigas deu uma gargalhada! "_E não é que essa menina tem razão?! Isabel, sua filha tem razão. É um sofá!". E o riso de Isabel ecoou, décadas depois, na sala de seu apartamento na Avenida Angélica - projeto do Bratke, do velho Bratke, foi logo dizendo. Nossas conversas depois do almoço iam longe. Ela recordava os amigos: Rubem Braga, Mário de Andrade (que sempre ia escutar os discos importados que seu marido comprava), Luis Saia, Jorge Amado e Zélia Gattai (antes mesmo de se conhecerem)... Mas a conversa dava voltas e retornava à casa do Pacaembu.
Consultei o Artigas sobre a pintura da casa e ele indicou o Rebollo. O Rebollo pintou as laterais em marrom - que era pra encurtar as distâncias - e a laje inclinada em azul claro. Cor do céu. Era assim: no centro era o living, de um lado era um escritoriozinho e, desse lado, a sala de jantar. Nessa parede eu tinha um painel do Di Cavalcanti. Enorme... Ele tinha uma dívida pequena no Clube dos Artistas e disse: fica com vocês e vocês pagam a minha dívida. Era um quadro grande, pegava quase toda a parede...
A sala era muito ampla - 15 metros de frente - e tinha uma janela que ocupava essa frente toda. Uma noite teve uma tempestade. Muitos relâmpagos. Foi uma coisa assustadora. Você imagina, minha filha, eram quinze metros de tempestade! Então eu falei pro Artigas que queria pôr uma cortina. Ele disse: "_mas Isabel, assim é que é bonito". "_Mas Artigas, a tempestade estava dentro da minha casa, foi uma coisa terrível!". Então, ele disse que tudo bem, a casa era minha.
Sob o ponto de vista da relação arquiteto e cliente, Artigas tinha razão: a casa era de Isabel. Mas diante do legado deste notável arquiteto e das lições que ainda podemos extrair de sua obra, esta casa é nossa! Por sua clareza de intenções, pela força de seu partido formal e pela simplicidade de seus detalhes, ela é nossa. Porque dentre as referências que ficaram daquele momento, esta é uma - entre tantas outras que desapareceram - que merece ser preservada; especialmente pela qualidade de seu projeto arquitetônico - que persiste até hoje, apesar das alterações efetuadas pelos diversos proprietários - e por sua apropriada inserção no contexto urbano - fato cada dia mais raro em nossas cidades.
Apesar da importância reconhecida do arquiteto, a residência foi preservada por acaso. Afinal, mesmo na publicação mais completa sobre o autor, a casa fora trocada por outra, fazendo com que as pranchas do projeto original - cuidadosamente arquivadas e digitalizadas na biblioteca da FAUUSP - não encontrassem correspondência com a foto que ilustra o texto sobre a residência. Parece que a Isabel - de quem tenho saudades, mas que deve estar num lugar muito bom, rodeada por seus velhos amigos - está a nos aconselhar: uma memória como esta que a casa materializa e representa, não pode ser esquecida. Especialmente por nós, arquitetos.
Cristiane Souza Gonçalves é arquiteta, especialista em Patrimônio Arquitetônico pela PUC-Campinas (1999) e mestre pela FAUUSP (2004); atualmente é doutoranda pela FAUUSP; convidada do Instituto de Arquitetos do Brasil, Núcleo Jundiaí - IAB Jundiaí
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