04/09/2007 - Café: arquitetura e cidade

Cidade tem tudo a ver com café, pelo menos para São Paulo. O desenvolvimento do Estado de São Paulo esteve intimamente ligado à evolução da cultura cafeeira e à expansão do transporte ferroviário. É quando a cidade consolida-se e formam-se as redes de cidades. A imigração; a formação das Colônias dentro das Fazendas, residência do novo trabalhador da lavoura cafeeira; os Núcleos Coloniais, implantados entre o centro urbano e as áreas rurais, de importância na ocupação planejada do território paulista, onde são assentados os colonos em tarefas de apoio à produção de café; paulatinamente, passa-se de uma ocupação do território com um rural efêmero, esparso, para uma urbanização extensiva, cada vez mais contígua e adensada.

A imigração proporciona o crescimento das cidades e o aparecimento de grande número de profissionais habilitados no ramo da construção, tais como engenheiros, arquitetos, mestres-de-obras, pedreiros, marceneiros e carpinteiros. Surgem as olarias, a fabricação do tijolo. Nasce a arquitetura do tijolo. O conhecimento em se construir com o tijolo, dessa técnica construtiva. Novas alternativas de agenciamento das moradias e de sua organização interna. A tipologia construtiva tornou-se o partido para a moradia das casas realizadas a seguir no Estado de São Paulo; sem dúvida, a arquitetura italiana contribuiu para a evolução da casa brasileira.

A utilização do ferro na construção acompanha o processo de implantação do transporte ferroviário para o escoamento do café.  Começa-se a empregar o ferro nas estações de trem e em construções significativas: a arquitetura ferroviária; a arquitetura do ferro. Estudar o ciclo da economia cafeeira permite compreender a origem das cidades, das indústrias, das técnicas construtivas, da ocupação do território e dos agenciamentos das construções: a ferrovia, a urbanização, as Colônias, os Engenhos, as Usinas, os Núcleos Coloniais, a Casa Grande, a Senzala, o Terreiro do Café, a Tulha, além das plantações do café.

No começo, a produção do café desenvolveu Fazendas Rurais, um rural efêmero, esparso, no interior do Estado; esse desenvolvimento era ainda desconhecido nas cidades, poucos centros da vida urbana, muitos estagnados; enquanto, nas Fazendas, sedes construídas em taipas, recebiam o requinte da influência européia, na arquitetura, no mobiliário e na organização das funções e serviços.

No final do século XVIII, as cidades começam a sentir os reflexos da economia cafeeira. A ocupação do Estado de São Paulo é planejada através da implantação de Núcleos Coloniais. Nas Fazendas, as Colônias substituem as Senzalas, com casas com plantas mínimas; normalmente, com dois cômodos, um para os afazeres domésticos e estar, outro, o dormitório; geralmente, geminadas e alinhadas; a cobertura em duas águas.

Diferentemente, nos Núcleos Coloniais, o colono recebia o terreno, construía sua casa com o conhecimento da técnica construtiva e forma de morar que trazia do seu País de origem; eram casas amplas e que recebiam puxados com o passar dos anos, conforme as novas necessidades; normalmente, as fachadas voltadas para a estrada, com porta centralizada e ladeada por duas ou mais janelas; cobertura em duas águas iguais; planta mínima: sala central, dois dormitórios laterais e, nos fundos, a cozinha e serviços; podiam ser térreas ou assobradadas; frequentemente, tijolos assentados à vista e com trabalhos decorativos; o pedreiro se esmerava na elaboração das cimalhas, arremate superior entre a parede e cobertura, tendo como principal função o desvio das águas de chuva.

Na arquitetura comum, da forma como vive a maioria, surge a influência italiana na arquitetura brasileira, sobretudo em São Paulo. Jundiaí, sofre esse reflexo, na época conhecida como a "cidade italiana", por suas construções; até hoje podemos encontrar essas referências. Vários arquitetos Jundiaienses são descendentes de mestres-de-obras italianos: "muratore", "construtore", "marmista", "fabro-ferraio"; de empreiteiros, projetistas etc. É uma história que precisa ser estudada, para que o percurso da arquitetura jundiaiense, inclusive a atual produção de arquitetura, seja compreendida em suas diferentes manifestações.

Bibliografia: BOTELHO, Cândida M. R.. Fazendas Paulistas do Ciclo do Café: 1756-1928. São Paulo: Terra, 1996.
KAMIDE, Edna H. M.; PEREIRA, Tereza Cristina R. E.(coord.). Patrimônio Cultural Paulista: CONDEPHAAT, bens tombados 1968 - 1998. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1998.
KÜHL, Beatriz Mugayar. Arquitetura do ferro e arquitetura ferroviária em São Paulo: reflexões sobre a sua preservação. São Paulo, Ateliê: Fapesp, 1998.
PEREIRA, Eduardo Carlos. Núcleos Coloniais e Construções Rurais. São Paulo, Atrativa: Eletrobrás, 2006.

Liane Makowski Almeida é arquiteta, vice-presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Núcleo de Jundiaí - IAB Jundiaí www.lianemakowski.com.br
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