Entrevistão de Domingo – Jornal de Jundiaí, p. 04 , 5/8/2007
(Copiado em o5/08/2007, http://www.portaljj.com.br/interna.asp?Int_IDSecao=1&Int_ID=26359)
O arquiteto Araken Martinho marcou definitivamente Jundiaí. Com 150 projetos residenciais, duas grandes obras públicas - o Paço Municipal e a sede da DAE-, ele se transfigura para algo mais sutil. É um filósofo... um urbanista que pensa e repensa sua cidade natal, onde cresceu, casou, teve filhos e sempre trabalhou. Recém-formado pela FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) em 1956, saltou para uma rápida campanha política e pela comissão do Plano Diretor de 1969, um marco para Jundiaí.
Nesta entrevista, concedida em seu escritório na avenida 9 de Julho, o modernista Araken Martinho faz críticas à falta de discussão política sobre as transformações na urbe e falta de previsões vocacionais futuras.
JJ - Como você vê Jundiaí?
Araken Martinho - Cada passo que damos é para destruir o que fez dela cidade. Cidade é civitas (civilização). É heterogênea. Grupos que convivem entre si. O comércio diversificado facilita a vida das pessoas, a padaria perto de casa, a mercearia. Esta mistura e noção de vizinhança é que faz a cidade. Não é mera passagem, intermuros que não se falam...
JJ - Isto é uma crítica aos condomínios fechados?
Martinho - Isto é um problema arquitetônico. Não dá para falar que este pessoal sobrevive sem o outro. Estamos em um projeto universal em que todos são necessários. É preciso reiventar a socialidade. É preciso dizer para os caras que estão em condomínio fechado: Tomem cuidado! Se puder, saia daí! Não dá pra viver em uma cidade entre muros onde um não toca o outro e você sempre fica andando no meio. Outro problema deste pessoal é: como encontrar mão-de-obra, ir à padaria, ao supermercado. Veja: a problemática da segurança continua... Ela vai entrar na casa do cidadão, quer queira, quer não. Quem tem o poder, precisa repensar nisso. A cidade moderna não é uma questão só de urbanistas. Você precisa de filósofos, sociólogos, professores. É humanidade que está em cheque.
JJ - Como você vê a mudança das fachadas do centro da cidade proposta pela prefeitura?
Martinho - Todas as experiências mundiais mostram que não há quem resista a uma atividade única no centro da cidade. Quando os moradores saem do local e o centro torna-se um mero centro comercial, ele se deteriora. Não se sobrevive sem gente. Os países com mais experiência, principalmente os europeus, sabem que o grande problemas deles é retomar os habitantes, com seleção do pessoal que vai morar ali. Não dá para fazer uma limpeza deste tipo. Recortar como num teatro. ´Olha, este pedacinho aqui vai melhorar." Este é um projeto que a sociedade tem de assumir com clareza, mais do que beleza. Pode ser que o restante dos comerciantes gostem e apóiem a idéia. Mas a pergunta é "Quem vai decidir as fachadas?" Tínhamos estudos antigos que já apontavam as necessidades do centro e que foram esquecidos. Já não basta o que fizeram com a modernização do Centro?
JJ - Qual sua crítica?
Martinho - Alguém já analisou o que esta reforma trouxe de benefícios? O comércio progrediu? A área ficou mais segura? Mais bonita? O que é que se perdeu naquela área? A praça da frente da matriz era muito importante, pois era ali onde as pessoas se encontravam para contar suas histórias, se verem e agora ficou só como um cruzamento em X. E ainda têm a ousadia, onde o espaço é tão pequeno, e a proporção deveria ser cuidadosa, de se colocar uma escultura daquela escala encravada bem no meio da praça? Pensaram na escala? Precisa-se de um pouco mais de cuidado, de se conversar com mais gente... Ver experiências de outros locais no mundo.
JJ - É fácil andar pelo Centro?
Martinho - O revestimento de piso foi escolhido para que se tire e se coloque sem danificar. E este material tem a grande qualidade de poder ter padrões de cor. Em vez de se perguntar por que se tem um padrão diferenciado em todo o mundo, e em Jundiaí não se criou um padrão de cor para identificar onde fica a circulação de veículo, de bicicleta, de pedestre. Aqui não. Pegou-se o centro da cidade como se fosse uma tela abstrata em que a pintura e as coisas se atravessam e eu nunca sei se estou na calçada, na rua ou na praça. Tudo é passagem e confusão. Isto é quermesse. Estas coisas deveriam ser feitas com muito cuidado técnico.
JJ - Qual a influência do Plano Diretor?
Martinho - Acho que o plano diretor engessou muita coisa. Ele deu uma certa ordem, mas a força de não querer mexer em nada na verdade fez com que se perdessem algumas atuações que precisariam ter sido feitas na cidade. Por exemplo, uma cidade que era tipicamente industrial de repente se transformou em uma cidade de logística, perfeitamente previsível. Mas o Plano Diretor muitas vezes vetava os usos destas passagens. Onde o Plano Diretor endureceu? Um exemplo é a indústria de alta tecnologia que nunca existiu aqui. Entre uma indústria que tem um alto valor agregado, como são as indústrias jundiaienses, você poderia mudar para alta tecnologia. Cadê o DI (Distrito Industrial) para este ramo? Nunca foi feito, já que ele precisava estar distante dos centros poluidores. A indústria de alta tecnologia tinha de ter ficado no sopé da Serra, onde é limpíssimo. Fomos impedidos de pensar nisto pelo engessamento.
JJ - A história está sendo preservada?
Martinho - O perfil da população jundiaiense vem mudando, principalmente pelos forasteiros de classe média alta que nos escolhem para viver. O que isto acarreta?
Este é um dos problemas urbanísticos com viés social... Muitas famílias vêm para Jundiaí atrás de benefícios da cidade, como água tratada, serviço eficiente de lixo e toda esta infra-estrutura que foi se construindo através dos séculos. Mas elas sabem que isto tem que ser debitado a grandes homens públicos jundiaienses do passado? E que precisamos de homens públicos para manter este nível? Cadê esta visão para os novos jundiaienses? Política pública deveria estar sendo discutida nas escolas municipais. A história tem de ser contada.
JJ - Como você vê o ´boom´ da logística?
Martinho - Precisamos repensar também esta questão da logística. Quando ela vai se abater sobre o orçamento? Estamos trocando produção industrial por logística. Isto é bom? Porque a atividade de tirar notas fiscais em Jundiaí pode ser transferida a qualquer hora... É só a empresa se mudar. Precisamos discutir isto, mesmo porque cadê a discussão do sistema viário? Só que este sistema nunca foi pensado como transporte coletivo. E, com esta nova população que chega com carros, vamos nos complicar cada vez mais no trânsito.
JJ - E o Situ?
Martinho - Ele mudou o seu sentido. As estações estavam preparadas para se ter um sistema seletivo de transporte, evitando-se ir para o Centro. Isto mudou completamente. A estação rodoviária estava na 14 de Dezembro, com um terminal de ônibus. Em compensação, temos dois terminais em linha na estrada velha de Campinas. Por que mudou? Aquilo que foi pensado foi abandonado. Aquilo que era um processo rosáceo na cidade, onde não se circulava na cidade, foi por água abaixo. A idéia inicial era boa... Mas hoje é alvo de reclamações constantes. Infelizmente, jogam-se fora projetos que foram concebidos pelo próprio PSDB. Não há uma continuidade. O próprio centro já tinha sido alvo de estudo na época do Benassi. Cadê o projeto? Precisamos desengavetar.
JJ - Qual o reflexo da mudança da rodoviária para a 9 de Julho?
Martinho - A avenida 9 de Julho é um exemplo. O tráfego de veículos pesados vai deteriorar o asfalto, assim com já aconteceu na avenida Jundiaí. Há pouco recuo na avenida, dificuldade em se fazer garagens subterrâneas devido à presença da água. Já existem congestionamentos, pouca opção de alargamento. O que se fazer agora? Colocar mais ônibus? Não adianta fazer uma rodoviária sem se pensar o trajeto das empresas tradicionais como Cometa e Caprioli, que continuam a passar pela avenida Jundiaí.
JJ - Qual a solução?
Martinho - É preciso abrir estas discussões. Chegar a acordos. Qual o medo político desta abertura? Há que se agregar conhecimentos. Não ter medo de discutir. Ouvir a população. Precisamos saber aonde queremos chegar?
ARIADNE GATTOLINI