08/05/2007 - a arquitetura contemporânea

A cidade de Jundiaí tem sido escolhida como moradia por novas famílias. Alem da fluidez garantida por nossas estradas para acesso às metrópoles vizinhas, a qualidade de vida alcançada num trabalho de décadas, graças a homens públicos que vêm trabalhando desde meados do século passado é fator decisivo na escolha do lugar. Mas se essa nova gente que para cá se muda reconhece a qualidade das coisas públicas que foi uma das razões de sua escolha, normalmente não conhece a qualidade dos homens públicos passados e presentes e quanto custa tê-los a mão. Não se faz uma geração desses homens do dia para a noite.
É nesta hora que defendemos, sem perder a perspectiva da modernização necessária, os cuidados com o patrimônio arquitetônico, artístico, cultural e político. Este é um trabalho imprescindível e cuidadoso. O patrimônio não é para ser preservado, restaurado ou refeito só com o conhecimento profundo de especialistas, mas com a capacidade de entender historicamente o passado reconhecendo território, estudando características de um tempo que serviu nossa comunidade. Lina Bo Bardi, quando esteve entre nós para planejar com Marcelo Ferraz e Francisco Fanuchi nosso Polytheama chamou o resultado de presente histórico.
Será preciso reconhecer que o território a ser preservado é o chão mais a população entendendo que primeiro fazemos nossas casas depois elas nos fazem. Há algum tempo o arquiteto Ariosto Mila propôs para Jundiaí um conselho de Patrimônio. Acredito que deva existir, ampliando as possibilidades das gentes dos lugares participarem oficialmente dos cuidados com o território usado.  Deveríamos ter base para uma vida civilizada em comum; a cidadania plena das pessoas depende de soluções a serem buscadas localmente entendendo e revalorizando os lugares da convivência solidária, onde a vizinhança e a solidariedade possam acontecer.
Com esses cuidados daremos aos bem-vindos e recém-chegados novos cidadãos jundiaienses a possibilidade de compreenderem quanto custou estar onde estamos e quanto custará manter e ampliar a qualidade da coisa pública permanentemente. Já perdemos algumas chances ao tentar revitalizar espaços públicos jogando fora o passado e toda sua história, substituindo as pátinas que só o tempo e a gente conseguem marcar, por aparatos tecnológicos, caricaturas da arquitetura de espetáculo do primeiro mundo.
Quem hoje será capaz de reconhecer a importância para a cidade e seu progresso do que foi o Parque Carbonari, a nossa "Festa da Uva", como desenvolvimento da qualificação da uva de mesa local ou a praça governador Pedro de Toledo como centro do debate político na cidade? A arquitetura contemporânea começa por não querer repetir o que já existiu. Não há novos ecletismos em arquitetura que resistam há mais de cinco anos de vida.
Quando o desenho de uma fachada reproduz em argamassa o que no passado era pedra evidentemente paga o preço de uma deterioração irreversível e de uma manutenção exacerbada.
A arquitetura de nossos tempos tem como base uma causa que é a de abrigar a vida atual e principalmente a velocidade de suas transformações, a qualidade dada pelos novos meios técnicos-cientificos-informacionais. Exige estudo e dedicação que devem alimentar os setores da construção civil e manter um diálogo competente com esta área. É preciso construir o futuro conseqüente da cidade gerando cidadania responsável. Nossa responsabilidade será mais da durabilidade e consistência da cidade que estamos construindo do que da velocidade com que a arquitetura e urbanismo, transformados em mercadoria de ocasião, se instalem, gerando lucros imediatos e futuro sem busca da civilização que nos fará cidadãos.
A história de nossa cidade deveria estar nos currículos de nossas primeiras escolas. O trabalho de homens públicos de valor deveriam ser defendidos nos cursos e nas mídias assim como a geografia generosa de nosso território. E que cuidemos mais de nosso lugar com suas qualificações para não matarmos, para lucrar sobre suas qualidades, a galinha dos ovos de ouro.

Araken Martinho é arquiteto e pertence ao Conselho Superior - COSU, do Instituto de Arquitetos do Brasil do Departamento de São Paulo - IAB/SP, membro do IAB Jundiaí.
araken.m@terra.com.br