A cidade é fruto da necessidade de relacionamento entre as pessoas e o meio em que vivem; e, diante disso, pela organização e pela disciplina dos anseios comuns dos cidadãos, foi necessário o surgimento do Poder Público para a concretização de uma vida melhor com vistas ao conceito de Felicidade. Mas não é apenas isso, vez que, como bem salienta Gordon Cullen (“Paisagem Urbana”), “uma cidade é algo mais do que o somatório dos seus habitantes: é uma unidade geradora de um excedente de bem estar e de facilidades que leva a maioria das pessoas a preferir – independente de outras razões – viverem em comunidade a viverem isoladas”.
Aí se encontra o conceito de cidadania, um elo existente entre pessoas e sua responsabilidade em participar efetiva e diretamente das questões decisivas para o gerenciamento e desenvolvimento da Cidade. Isso decorre da expansão do poder que cada cidadão tem ao decidir os rumos de sua vida, iniciando-se pelo seu próprio lar – escala reduzida da Cidade.
Neste contexto, é importante se adentrar na atual discussão acerca da revitalização da Av. Nove de Julho, surgida nos jornais das últimas semanas, não como oportunidade de discussão pública, mas sim como estalo do “carimbo do Executivo” no mapa da cidade!
Diante de um projeto de tamanha importância, uma cidade democrática e participativa exigiria pesquisas de opinião pública, debates entre os seus mais diversos setores, fervor nos meios de comunicação acerca da melhor forma de pensar a cidade, tudo isso para que a vontade da população fosse determinante no rumo da cidade. No entanto, foi imposto um projeto não discutido, nem mesmo divulgado! – um desajuste na essência do conceito de Cidade, seja pela perda da relação de identidade e conectividade com seus habitantes, seja pela inversão da ordem originária de sua causa: a cidade deve se moldar aos desejos e necessidades de seus habitantes e não o contrário!
Assim, não se está criticando um projeto, mas sim a forma com que foi criado! – não se pode concordar com qualquer projeto urbanístico imposto e que refletirá na alteração da configuração urbana, repercutindo na forma com que os cidadãos vivenciam sua Cidade. O perigo nestes atos “não democráticos” se encontra na perpetuação deste modelo de crescimento sufocante, em que o trator supera o planejamento e a utilidade econômica da obra supera sua função social de proporcionar o harmonioso inter-relacionamento das pessoas com o ambiente em que elas vivem.
Fato é que a população de Jundiaí sofre com este desenvolvimento da cidade decidido dentro dos gabinetes, enquanto que as principais cidades do mundo em qualidade de vida buscam adequar as necessidades e as vontades de seus cidadãos ao planejamento urbano, utilizando-se da primazia do concurso público para concretizar o ideal em realidade.
Não pode a população de Jundiaí, mais uma vez, esperar que as confluências dos atos desordenados e solitários dos políticos e de seus assessores, venham, em um passe de mágica, na solidão do gabinete, encontrar as mesmas soluções que referidas “cidades desenvolvidas” só alcançam com muita discussão pública e planejamento!
Assim, não basta ter uma Cidade com esgoto limpo e tratado, uma Cidade com um PIB representativo na esfera estadual, nem mesmo uma Cidade bem localizada e economicamente desenvolvida, se a população não aproveita tais condições raras para ter, efetivamente, uma Cidade cujo desenvolvimento urbano caminhe com a sua participação. Não basta ter uma Cidade em que o cidadão não é sujeito, mas sim objeto de sua evolução!
A democracia no desenvolvimento urbano deve ser o caminho adotado, na qual as pessoas, cidadãs, são responsáveis pelo meio em que vivem, sejam nas obras urbanas, sejam na relação com os demais cidadãos, do prefeito ao mendigo, das crianças aos idosos, dos jovens aos portadores de necessidades especiais. Este é o caminho de uma cidade humanitária, lutando contra a exclusão social e a relação de indiferença de seus moradores com cada ponto urbanístico da Cidade. Este é o caminho que devemos querer e lutar para a nossa Jundiaí.
Daniela da Câmara é arquiteta e urbanista,
associada ao Instituto dos Arquitetos do Brasil, Núcleo Jundiaí – IAB Jundiaí.
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