11/09/2007 -Carta a interessados em arquitetura

Sempre achei arquitetura muito mais formulação de problemas do que a busca por meras respostas. Sendo assim, hoje só questionarei. Quem sabe alguém não me responda e me ajude a desvendar esse trem todo:  Questionamento um: o espaço da arquitetura é mesclado, confundido e inter-relacionado com o da arte? Existe uma linha de divisão entre estes espaços? (essa eu, de lambuja, inicio uma resposta). Esta confusão ocorre por haver sido a arquitetura considerada como tal, ao longo da história, ao tratar da idealização e construção de edifícios monumentais (de caráter público ou religioso).

E esse processo histórico acabou colocando o arquiteto num impasse: de um lado há a necessidade de construção de um meio ambiente genérico, como palco anônimo da existência humana; do outro lado encontramos a responsabilidade histórica do arquiteto em criar sempre uma coisa entre coisas, um objeto diferenciado que sintetize a experiência de quem o cria e vivencia: a priori, uma obra de arte. Vemos aqui mais um ponto importante para levarmos em consideração à análise da arquitetura em si: o de sua problematização, e também a dificuldade de possuirmos espaços públicos e, conseqüentemente, de termos edifícios com significância histórica/usual/formal/funcional.

O arquiteto, hoje, é ensinado (em escolas, livros e debates) a criar obras de arte e espaços que se diferenciam e frustra-se, constantemente, ao descobrir que o espaço urbano em que vivemos apresenta-se homogêneo e amorfo não pela anonimidade dessas contribuições individuais, mais por inúmeras tentativas frustradas de construção de espaços que se diferenciam.

A somatória dessas tentativas acaba por descortinar ao habitante urbano não uma somatória de sínteses de sua existência comungada com cada contribuição, mas uma triste coleção de construções que podem ter se diferenciado das demais em algum momento, mas cuja repetição de princípios e padrões construtivos posteriores em diversas outras edificações acaba por esgotá-la como espaço significativo.  Como chegamos a esta realidade hoje? A arquitetura moderna procurou desmontar a idéia de monumento e advogou a urgência de desenhar um conceito, mais do que habitação, edifícios públicos e espaços coletivos. Como se deu isto na teoria e na prática?

Questionamento dois: podemos desmembrar a discussão sobre a problematização da arquitetura e de que tipo de papel esta deve desempenhar na sociedade em quatro grandes frentes: a arquitetura podendo ser indiferente às preocupações sociais e a seus modos de expressão e representação; arquitetura podendo colocar-se a favor do status quo e aceitar as condições existentes, arquitetura podendo guiar a sociedade para um novo rumo, arquitetura fazendo uma crítica radical e reconstruindo a sociedade. O que nós, arquitetos, produzimos, entram apenas como exemplificações de possíveis teorias ou se comportam como grandes eixos de discussão assumindo papel fundamental nos rumos da arquitetura?

Questionamento três (prometo ser o último): a arquitetura é feita de matéria e espaço. Podemos concordar com Lao-tsu ("Reunimos trinta raios e os chamamos de roda; mas é do espaço onde não há nada que a utilidade da roda depende. Giramos a argila para fazer um vaso; mas é do espaço onde não há nada que a utilidade do vaso depende. Perfuramos portas e janelas para fazer uma casa; e é desses espaços onde não há nada que a utilidade da casa depende. Portanto, da mesma forma que nos aproveitamos daquilo que é, devemos reconhecer a utilidade do que não é") e creditar maior valor (se é que conseguimos medir valor no estudo do espaço), hierarquicamente, para o vazio, onde se dá a vida das pessoas, suas ações e conseqüentemente onde nasce a própria esfera pública. Porém, cabe à forma e organização material, criar parte dos sonhos coletivos como um lugar completamente habitado. Conseguiremos afinal, um dia, investigar os limites da arquitetura?

Quem souber alguma resposta, me ensine. Quem tiver mais questionamentos, marquemos uma conversa... Acho muito melhor formular questões em grupo.

Antonio Fabiano Junior é arquiteto, mestrando da pós-graduação da FAU/USP; associado e membro do Projeto Jornal do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Núcleo de Jundiaí - IAB Jundiaí (www.iabjundiai.org.br); E-mail: antoniofabianojr@terra.com.br.