O Bolão configura-se como referência na paisagem e memória do jundiaiense. É comum escutar em explicações de endereço: "sabe o Bolão? Então, esta rua fica ali próximo"... Em fotos da cidade sempre aparece majestosa a cúpula de concreto, com 60 metros de diâmetro e 25 metros de altura; estádio com capacidade para cinco mil pessoas. Para a época em que foi construído, a arquitetura foi considerada arrojada; o primeiro exemplar em casca de concreto com esse vão na América Latina.
Esse projeto inovador foi premiado numa exposição de arquitetura na Alemanha, por representar o maior vão livre de concreto armado construído sem tirantes. O decimbramento (a retirada da madeira que sustenta a construção da casca após a cura do concreto, quando o concreto forma uma única peça com a ferragem) é fato rememorável; efusivamente noticiado nos jornais; cria-se a expectativa se a casca venceria o vão após a retirada de seus apoios; várias pessoas dirigem-se ao local; dizem que houve apostas; e muita alegria quando essa bela arquitetura por lá ficou e entrou intimamente na vida do jundiaiense.
Depois de alguns anos, a casca de concreto começou a abrir e a pressionar as colunas de sustentação para fora. A solução encontrada foi fazer o atirantamento (colunas externas); acréscimo que passou fazer parte da imagem do Ginásio. O "Ginásio de Esportes Dr. Nicolino de Lucca", nome oficial, foi projetado pelo arquiteto Vasco Antônio Venchiarutti no seu primeiro mandato como Prefeito de Jundiaí (1948/1951). A construção foi iniciada em 1950 e foi concluída em 1953; inaugurado com a realização dos Jogos Abertos do Interior em 1953, na gestão do Prefeito Luís Latorre. Esse espaço foi concebido como uma grande área de lazer e esportes, como um lugar de referência e de ponto de encontro da população.
Em um terreno de 61861 metros quadrados, além do conjunto esportivo, abrangendo o ginásio (Bolão), três quadras de tênis, duas quadras poliesportivas, piscina e pista de atletismo, foram instalados outros equipamentos de recreação: praça, parque infantil e espaços livres para o deleite. Desde sua inauguração, sempre foi muito freqüentado pela população; utilizado tanto para práticas esportivas, para passear como para eventos esportivos, socioculturais e da vida política da cidade. Durante muito tempo foi usado como local para a contagem de votos manual nas eleições.
Lembro-me, ainda criança, recém-chegada em Jundiaí, morando na frente do Bolão, políticos eleitos sendo carregados no colo; das noites de eventos esportivos, que eram uma festa na rua; do circo Orlando Orfei; mas o Bolão foi meu quintal; eu, meus irmãos e outras crianças brincamos muito por lá; a convivência no espaço externo e de forma livre fez parte de nossa infância e formação. O Bolão abrange uma área verde exuberante e de referência na paisagem urbana; por lá se encontram várias espécies de árvores, com floradas em diferentes épocas do ano e que embelezam Jundiaí.
Os anos transcorreram na vida do Conjunto Esportivo e da Cidade; mas este permanece como referência da memória histórico cultural, afetiva social e da imagem da cidade do jundiaiense; tornando-se legado da história de Jundiaí. No entanto, no decorrer dos anos, foram construídos uma série de "puxados", precários e muitas vezes indevidamente localizados nos recuos obrigatórios. Entre 1996 e 1998, a cúpula de concreto é pintada de azul e branco, indevidamente; apesar de nessa época, como recentemente, recebeu obras que o tornaram mais confortável ao uso público.
A construção de anexos para a Escola Superior de Educação Física - ESEF - por um lado, foi uma solução para a separação das atividades da Faculdade e do Conjunto Esportivo; mas por outro lado, prejudicou o ambiente de agenciamento desse Conjunto. A Municipalidade tem a missão de preservar o legado do Patrimônio Histórico e Cultural, inscrevendo-se nesse o Bolão; com o inventário do patrimônio histórico, a proposição de Legislação de proteção desse e a instalação do Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, a Prefeitura tem demonstrado interesse de efetivamente implementar a Política de Proteção do Patrimônio Histórico.
Denize Makowski Benedicto é arquiteta, especialista em Projeto de Arquitetura e Restauro do Patrimônio Arquitetônico pela FAU/ PUCCAMP (2003); suplente do Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico; associada do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Núcleo de Jundiaí - IAB Jundiaí.
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