Nunca fomos tão culpados pelo desastre ambiental causado ao planeta quanto nestes últimos anos. A segunda revolução industrial e, em conseqüência, a crise ambiental no final do século XX fizeram com que fosse difundida uma maior consciência arquitetônica, utilizando um critério mais rigoroso nos novos projetos em relação ao meio ambiente.
A obrigação dos engenheiros ambientalistas, dos técnicos, como nós arquitetos, é aquela de utilizar o avanço da tecnologia para melhorar as condições de vida, minimizando os efeitos causados tanto pela arquitetura como pela urbanística, em determinadas zonas onde o valor paisagístico é muito importante. Na verdade, o nosso principal objetivo deve ser aquele de projetar usando como força propulsora às novas tecnologias e fazendo com que não se prejudique de forma irrecuperável o meio ambiente.
Nós arquitetos devemos ter a capacidade de enfrentar os problemas que se apresentam, com um método que integre um idôneo conhecimento da natureza, com a tecnologia, a legislação e os aspectos socioeconômicos. A análise territorial nos obriga a considerar os fatores ambientais, como determinantes para realizar novos e variados projetos. A geografia, o estudo da flora e fauna, os variados ecossistemas, fazem parte de uma pluridisciplina que forma um quadro geral capaz de orientar as nossas novas preferências ´projetuais´ e, o mais importante, fazem com que se eliminem as causas de deterioração ambiental, procurando formar um equilíbrio harmonioso com o planeta.
O arquiteto Sérgio Sernissi, da "Soprintendeza per i Beni Architettonici e Paesaggisttici di Firenze", responsável pela tutela ambiental de uma vasta área montanhosa circundante de Florença, entrevistado, explica que esta grande área tem vários problemas de integração entre arquitetura e meio ambiente, por causa do caráter não homogêneo do território e esclarece que existem áreas próximas aos centros habitados, onde, por muitos anos, ocorreram intensas atividades de construção civil que degradaram algumas partes de tal território, pela utilização de métodos excessivamente evasivos, os quais levaram a uma forte descaracterização do mesmo.
O arquiteto fiorentino afirma que uma das causas que levaram à descaracterização das florestas e da paisagem foi determinada pelo despovoamento das montanhas, por parte dos mesmos habitantes que antes já haviam causado um forte impacto ambiental. Nestas áreas ocorreram cortes de árvores, nem sempre adequados, excessivas edificações, novas estradas e numerosas outras urbanizações que, uma vez abandonadas, provocaram um grave fenômeno de desastre ambiental.
De acordo com Sernissi, temos que ter a consciência de que para a recuperação de um ecossistema é necessário interagir todas as atividades que favoreçam a retomada espontânea de vegetação autóctone. A busca incessante, ainda que limitada, do efetivo e contínuo "renascimento" da natureza em algumas áreas, pode constituir a premissa para uma efetiva recuperação de vasta área territorial.
Sernissi esclarece outro ponto fundamental para a tutela do meio ambiente: a necessidade de sensibilizar o cliente - que o importante é criar novos percursos de projeto, onde prevaleça a qualidade da obra em si, em relação ao contesto ambiental circunstante. Afirma ainda que é importante entender que um projeto realizado, segundo estes procedimentos, não garante somente uma correta inserção no meio ambiente, mas também permite um maior retorno econômico.
O restabelecimento do meio ambiente, depois da construção de uma obra, depende com certeza de como esta foi projetada e realizada. Devolver à paisagem as suas próprias características originais deve fazer parte do projeto, a fim de que as obras realizadas transformem-se, elas mesmas em parte integrante da paisagem que contribuíram a mudar. É a experiência que deriva do trabalho ativo de Sernissi no território colinar-montanhoso do complexo Florença-Pistóia.
Isto leva a uma reflexão que resume o sentido desta entrevista: O importante é aperfeiçoar e desenvolver os "projetos nas paisagens" em "projetos de paisagem".
Leandra Pozza é arquiteta e urbanista, especialista em Restauro e Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural, atualmente trabalhando em Firenze - Itália, associada do Instituto de Arquitetos de Brasil, Núcleo de Jundiaí.
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