16/08/2007 - O tempo é implacável

O tempo também é cruel. Principalmente quando se planeja uma cidade. É exatamente essa velocidade com que as coisas mudam que nos permitem evoluir, mudar nossos conceitos e o modo como víamos as coisas. Apesar de todo respeito que tenho pelos magníficos profissionais e colegas, que inspiraram e influenciaram as novas gerações de arquitetos de Jundiaí e do Estado de São Paulo, não posso deixar de me contrapor ao que alguns deles defendem como uma verdade absoluta. Tivemos excelentes Arquitetos com grandes projeções nas décadas passadas.

Mas me parece que alguns deles estão um pouco distantes da realidade atual de nossa cidade. Aquilo que parecia inevitável na década de 80, hoje se dissolveu, desmanchou - se no ar. De lá para cá, Jundiaí passou por transformações significativas. Sua população aumentou, seus problemas e demandas também. Jundiaí mudou de vocação, não pelo desejo deste ou daquele prefeito. A economia mudou, indústrias fecharam suas portas, outras foram transferidas, ao mesmo tempo em que novas empresas vieram para cá. Os projetos pensados no passado, como não poderiam deixar de ser, perderam-se no tempo, ficaram obsoletos.

Considerando tudo isso, resgatar velhos projetos talvez não seja tão eficiente assim.  Apesar disso, não ignoramos sua existência nem nos eximimos de consultá-los, quando do início dos estudos para a modernização do Centro, apenas constatamos o que já era esperado, os projetos estavam desatualizados e defasados. Ao contrário do que possa supor qualquer pessoa que esteja afastada da administração pública, um projeto da envergadura da revitalização do Centro de Jundiaí não acontece ao acaso. Cada detalhe foi discutido com os principais atores daquele cenário. Comerciantes, empregados das lojas, usuários da região central foram ouvidos e participaram ativamente da discussão do projeto.

Aspectos técnicos foram considerados levando-se em conta nossos tempos modernos. O piso escolhido contrapõe-se diretamente ao asfalto impermeável. Além de flexível, o que facilita a manutenção das vias, esse piso permite a passagem da água, o que é ambientalmente correto. Nem "tudo é passagem e confusão".  As demarcações das faixas de travessias, táxis e estacionamentos estão bem visíveis. As travessias se dão pelo afunilamento do espaço destinado aos estacionamentos dos automóveis e aumento das calçadas. As baias de estacionamento estão confinadas entre as travessias ou floreiras.

Cada detalhe foi cuidadosamente pensado. As guias foram rebaixadas, para facilitar o caminho dos portadores de deficiência física. Não foi apenas um "X" colocado a esmo, foi pensado. Queríamos o "prolongamento" dos passeios no aspecto físico e visual. Recorremos a eles para quebrar exatamente o paralelismo e a ortogonalidade das ruas e praças. A implantação do monumento, estudada com maquete, em nada afeta a utilização da praça, as pessoas praticamente circulam por baixo dele. Em várias oportunidades observamos cadeiras e mesas espalhadas por este local para atender aos usuários do centro, num ambiente descontraído e agradável. Também nos preocupamos em enterrar toda a infra-estrutura.

Sob o passeio existe um gabarito para as instalações técnicas que decorreram de uma coordenação dos projetos com todas as concessionárias das instalações públicas: DAE, Telefônica, CPFL, Congás. Toda fiação elétrica e telefônica foi levada para debaixo da terra, obedecendo a gabaritos muito bem pensados pelo também professor e Arquiteto Antônio Fernandes Panizza. Um ambiente descontraído e saudável, que possa atender com qualidade a população,"Isto é quermesse"? Qual o problema em se parecer com uma quermesse? Gostaria até que fosse! Qualquer pessoa que tiver a oportunidade de andar pela Rua Barão de Jundiaí nas vésperas do dia das Mães ou Natal saberá definir.

Quermesse ou um shopping a céu aberto? Quando andamos pela cidade, precisamos nos manter atentos para poder perceber a sutileza de cada interferência. E não é diferente quando deixamos o Centro da cidade, quando seguimos qualquer outra direção. É imprescindível notar que a cidade se transformou, novas vias foram criadas ou redimensionadas. Temos as avenidas Antônio Pincinato, Antônio Latorre, Manoela Lacerda de Vergueiro.

O Situ foi pensado para atender a esse novo cenário. É um projeto essencial exatamente por ser flexível, e por ser dinâmico, jamais poderemos dizer que o projeto estará completo, porque sua estrutura permite acompanhar o crescimento da cidade. Novos terminais serão criados, falta o terminal Agapeama, excluído desta primeira etapa pelo BNDES. E outros objetivos que ainda faltam, como no caso da Nova Rodoviária, com certeza em breve também serão alcançados.

Considerando a perspectiva da construção das alças de acesso da Avenida Nove de Julho à Anhangüera, o que para mim parece ser inevitável, fico muito feliz em saber que a Nova Rodoviária foi construída ali, exatamente naquele lugar. Não no extremo sul da cidade, na Avenida 14 de Dezembro, longe e na contramão do que seria a lógica nos dias de hoje.

Jaderson Spina é Arquiteto.