16/10/2007 -Dresden, a Firenze do rio Elba

A Dresden do século XXI reserva várias surpresas, não apenas aos turistas, mas em especial aos arquitetos. As expectativas que se criaram durante séculos entorno à capital da Saxônia, raramente foram desiludidas e após a unificação das duas Alemanhas, a cidade renasceu das cinzas. Poucas cidades européias evoluíram tão ‘plasticamente’ como a Dresden histórica, quase como um quadro inserido na paisagem. Se o objetivo de seus governantes era construir uma das cidades mais belas da Europa, sua meta foi amplamente atingida.
Seu verdadeiro aspecto representa  ainda hoje, em si mesmo, um convite aos arquitetos a criar novas perspectivas, que transformam a cidade em puro projeto arquitetônico. Em 1989, após a queda do muro de Berlim a República Federal Alemã (BDR), com o apoio dos cidadãos de Dresden empenhou-se na difícil e complexa reconstrução, já que a mesma foi completamente arrasada no final do segundo conflito mundial. A cidade viveu vários episódios de derrota na sua vida urbana, mas em nenhum desses momentos lhe faltou coragem  de recomeçar especialmente dando liberdade sempre às novas tendências arquitetônicas, aceitando com fervor e entusiasmo todas as suas experiências projetuais, surpreendendo o espectador que passeia pela cidade com inúmeras construções em aço e vidro.
A capital da Saxônia tem antigas raízes construtivas ainda do período medieval. Em 2006 completou 800 anos, tendo atingido o apogeu no renascimento, um momento histórico que marcou sensivelmente o seu caráter arquitetônico. Mas, a monumentalidade e elegância se concentraram quando na cidade se definiram novos projetos mais sinuosos, curvilíneos, barrocos. Tais “silhouette” foram criadas por arquitetos europeus famosos como os alemães Matthaus Poppelmann, Gorge Bahr e o italiano Gaetano Chiaveri para citar alguns.
Ao serviço de Augusto o ‘Forte’, rei da Polônia,  Poppelmann reestruturou e ampliou o Palácio Real  inspirando-se em Versailles, certamente uma das pérolas mais interessante da cidade, o Swinger é uma feliz criação barroco-tardia; Bahr projetou um dos símbolos mais amados de Dresden, a igreja Frauenkirche, que reduzida a escombros em 1945, foi totalmente reconstruída e já em 2005 surgia, imponente, nobre e majestosa; Chiaveri projetou no largo que se forma no Elba, a igreja Hofkirche, transparecendo uma organicidade estrutural muito próxima com as nossas igrejas mineiras.
Mas Dresden, cidade evoluída, iluminista, acolheu no século XIX, uma desenfreada procura de modernidade, através do ecletismo histórico do arquiteto alemão Gottfried Semper que projetou a Pinacoteca no Swinger, o Teatro d'Opera (Semperoper) e a Academia das Belas Artes na terraza  Bruhl.
O classicismo em confronto direto com o barroco se materializou no Semperoper, surgindo como um marco inspirado no renascimento italiano, situado em um ponto estratégico da praça principal, tendo de um lado o Swinger e do outro um altíssimo exemplo arquitetônico de Friedrich Schinkel, a Casa da Guarda. O Teatro tem um tratamento prospectivo associado a elementos plásticos que dão movimento a fachada, os quais se estendem em dois planos de arcadas decoradas e uma terceira arcada mais interna que unifica todo o edifício. O portal principal é personalizado por uma 'loggia' decorada com tímpano que codifica o seu estilo arquitetônico, desta forma o espaço volumétrico coincide com a plasticidade externa. A importante arquitetura de Semper terá um notável fluxo na cultura do seu tempo, e em determinados momentos parecerá antecipar em muitos anos algumas características da arquitetura moderna funcional.
A fama da capital da Saxônia, pela sua posição natural, pelo seus edifícios, sua coleção de arte, sua música, sua vida artística, seus retratos, sua poesia está imersa em seu próprio encantamento. Todos nós, do outro lado do oceano que amamos a 'arte' fiorentina, deveríamos obrigatoriamente, ao visitar a Europa, descobrir a Firenze do rio Elba.

Leandra Pozza é arquiteta e urbanista, especialista em patrimônio histórico, mora e trabalha em Firenze – Itália ; é associada do Instituto de Arquitetos do Brasil, Núcleo Jundiaí – IAB Jundiaí
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