Pensar em uma cidade mais ao alcance das crianças significa projetar uma cidade melhor para todos, onde os espaços sejam dedicados não apenas às atividades de trabalho e funcionais ao desenvolvimento econômico, mas também espaços públicos adequados às necessidades de troca emotiva, e sócio-cultural com os outros indivíduos.
As constantes mudanças no significado e na importância dos lugares de encontro, diante da nova dinâmica das informações e no ritmo de viver, tornaram muitos dos espaços públicos da cidade em lugares de passagem – a rua, o principal dos espaços públicos, transformou-se em apenas um local de trânsito, de circulação e pista de rolamento de veículos. Como conseqüência, além da menor atenção dada ao espaço público e da degradação urbana que isso acarreta, perdemos componentes da qualidade da vida urbana, o de confronto (do debate e opinião), dos encontros informais e espontâneos e do crescimento coletivo.
Um exemplo disso são os espaços públicos destinados à recreação e à diversão das crianças, com atividades que ocorram em sua peculiar diversidade, permitindo sua socialização e convivência com outras crianças, além do desenvolvimento da civilidade e da cidadania. Infelizmente, em sua maioria, essa determinação se encontra absorvida por espaços privados (abertos e fechados) de lazer e restritos a quem de direito: as áreas abertas dos condomínios fechados, dos clubes e os espaços cobertos do quarto, das brinquedotecas, dos shoppings, dos centros esportivos, culturais e de lazer, quase sempre segregadores e enquadradores de comportamento massificador e consumista.
O uso do tempo da criança é afetado também pelo espaço, ou antes, pela falta de espaço em virtude da valorização e especulação do solo urbano, distanciando assim, os equipamentos públicos de lazer e recreação dos locais de moradia, limitando o acesso das crianças à “boa vontade” do adulto para acompanhá-la. Deste modo, a ocupação da grande maioria do “tempo disponível” da criança é usufruída nos próprios locais de moradia, dentro das casas, o que propicia a formação de um público cativo da televisão “... as crianças conhecem muito o dentro e pouco o fora...”. Esse fato aliado a outros como o crescente processo de urbanização, vem contribuindo para o desaparecimento de manifestações culturais autênticas, nos vários gêneros, notadamente das festas, tanto lúdico-religiosas, como lúdico-folclóricas.
Apenas os lugares de consumo continuam com a sua força de atração coletiva, com isso, como já foi dito, a categoria infantil vem se tornando muito carente de espaços que contribuam para a socialização, onde elas possam exprimir seus próprios valores. É comum encontrarmos, em centros comerciais, áreas destinadas à recreação infantil que, na maioria dos casos, são “depósitos” de crianças, onde o consumidor deixa seu filho entre piscinas de bolas coloridas e aparelhos de vídeo game, para usufruir com mais tranqüilidade seu tempo de compra e entretenimento.
Sem espaço nem tempo no cotidiano da sociedade pragmatista e utilitarista em que vivemos hoje, a criança não é considerada em si mesma, mas como um adulto em potencial, onde se substitui sua espontaneidade pela obrigatoriedade, tornando-a assim consumidora passiva da produção cultural vendida nos meios de comunicações de massa homogeneizadora, ao invés de produzir cultura.
Estas considerações apontam para a carência de atenção e investimentos públicos voltados à necessidade sócio-política, histórica e cultural das relações que se estabelecem entre a criança e o espaço em que ela se socializa, influenciando todo seu desenvolvimento e transformação em adulto consciente, na qualidade do espaço público e de vida de nós, cidadãos.
“Se a criança tiver algum tipo de assistência em descobrir a cidade, a cidade talvez poderá ainda redescobrir as crianças” – Aldo van Eyck (arquiteto holandês , com obra e posturas sobre o espaço construído de grande relevância nas décadas 60 e 70 do século XX);
Autor: Renato Fregnani é arquiteto e membro do Instituto dos Arquitetos do Brasil - IAB Núcleo Jundiaí;
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