A arquitetura é uma ciência antiga que vem se desenvolvendo juntamente com a evolução da nossa sociedade. Desde o início, a arquitetura está ligada à sociedade, e à vida do homem enquanto indivíduo. Hoje, a arquitetura, como a evolução da sociedade também traz questões urbanas nos mais diferentes contextos, e neste âmbito está diretamente ligada ao poder público. Na arquitetura, a cidade é movimento, é uma entidade social e política, a originalidade do ambiente construído emerge dos desejos das pessoas e da vida cotidiana, que inventam, com construção rigorosa o seu espaço, sobre o território multiforme da cidade, extremamente complexo e diversificado, fazendo rica e verdadeira a história. Temos exemplos como Barcelona, na Espanha, que passou por vários momentos históricos e soube orientar o seu crescimento dentro de um plano urbanístico que descreve cada momento histórico da cidade; um dos últimos projetos realizados foi a construção da Vila Olímpica, que fez renascer as praias de Barcelona como local de convívio. Outro exemplo é Frankfurt, na Alemanha, que cria uma rede ligando os vários museus na cidade, e com isso reorganiza o traçado urbano através de um valor histórico cultural.
Hoje, o planejamento das cidades e, principalmente do incremento das mesmas, traz estudos em diferentes escalas. O projeto na escala do desenho urbano é identificado como tarefa do poder público, sendo que no Brasil é pouco trabalhado. Devido a nossa origem colonial, nos distanciamos dos outros países, inclusive dos outros países latinos que trazem em seu traçado urbano um desenho, uma escala de espaços, de cheios e vazios, uma proporção mais adequada aos espaços citadinos. Espaços de circulação, espaços de convívio, semi-abertos, públicos e privados que surgem dentro de um desenho urbano qualificado.
Um plano urbanístico elaborado com qualidade garante uma homogeneidade da qualidade urbana. Quando o projeto na escala do desenho urbano é bem resolvido, o objeto arquitetônico, o edifício faz parte da paisagem da cidade, não tende a se destacar como objeto individual e sim como elemento compositivo dessa paisagem. Os espaços caracterizam os diferentes tipos de uso e entre esses usos as áreas de transição que compõem o ambiente urbano. Em suma, a cidade é formada por diversos lugares, por cheios e vazios, não se deve enxergar a cidade através das vias, e sim dos lugares entre as vias, aí está a beleza urbana.
Infelizmente, o Brasil culturalmente não abrange esse conhecimento, nossa visão política não abrange essa continuidade urbana. O poder público tem uma visão temporal, quase que momentânea e dificilmente avalia que estamos desenhando o desenvolvimento, a evolução de nosso território espacial. Geralmente, a especulação imobiliária fala mais forte e é que dita o traço que a cidade deve seguir. Quando, na verdade, "os governos deveriam ter o dever de verificar, a cada passo, e com maior razão do que qualquer cliente privado, a utilidade e interesse público dos projetos em curso respeitando as leis nº 6866 e 9670/98" (sobre licitação de projetos e obras públicas).
O ato de direcionar o crescimento, o desenvolvimento urbano é complexo. Por exemplo, habitação social não é fazer centenas de casas ou apartamentos, somente racionalizando o uso de materiais e mão- de-obra na execução, e criando projetos de unidades mínimas de moradia com preços mais acessíveis. Deve-se pensar na infra-estrutura urbana para que essa área residencial funcione; e o conceito de infra-estrutura urbana é amplo, além de saneamento básico (água, esgoto, drenagem e coleta de lixo), abrange escolas, creches, comércio local, transporte, além de outros serviços que são fundamentais num projeto de um complexo de habitação social. E esse é um dos motivos pelo qual esses projetos não funcionam no nosso país.
Cada setor da cidade tem que ser pensado de acordo com sua história; seus fluxos, suas atividades e seu traçado devem abranger os mais diferentes aspectos urbanos, as construções devem trazer densidades históricas da cidade para que se alcance uma qualidade espacial, uma qualidade urbana.
Mônica Fonseca é arquiteta e urbanista, cursando Especialização em Projeto de Arquitetura na Cidade Contemporânea, FAU/Mackenzie; Coordenadora do Projeto Jornal do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Núcleo Jundiaí - IAB Jundiaí (www.iabjundiai.org.br); E-mail: acropolearquitetura@uol.com.br