19/12/2006 - UM ESPAÇO PÚBLICO CONSOLIDADO


Incremento demográfico, congestionamento do tráfego, substituição da função residencial pela função econômica... Não temos dificuldade em admitir que o desenvolvimento e transformações econômicas e sociais da cidade estão associados a uma nova maneira de se viver, um novo ritmo ditado pelo sistema de informação e pelo apelo consumista imposto.
Não é difícil tampouco considerar a cidade como um bem de consumo, como um imenso sistema de informações. A cidade que realmente vivemos hoje não é dada pela arquitetura imóvel, mas sim pelos automóveis, pessoas, pelas infinitas novidades que são informadas através da publicidade e pelos outros canais de comunicação. Mudou-se, portanto, a maneira de viver e paralelamente, degradou-se a qualidade estética e funcional do espaço público.
Esteticamente, o espaço público se tornou refém da arquitetura descompromisada vinculada à especulação imobiliária (amplamente sustentada pelos poderes públicos), e à construções financiadas pela iniciativa privada, geralmente de caráter consumista ,que pregam pela sua padronização.Esse processo acarreta a perda de uma série de componentes da cultura urbana, essenciais à construção de uma cidade democrática, onde os espaços de lazer e encontros espontâneos convivam com a mesma importância dos espaços de consumo. Essa prática inibe a cultura local, própria e específica no âmbito de tradições regionais, como verdadeira expressão política urbana.
Vale ressaltar que essa situação, de contradição Público versus Privado, não é maléfica quando gerida com competência pelo poder público, que tem ferramentas para inibir e incentivar todo e qualquer tipo de investimento na cidade, seja ele de caráter privado, publico ou misto. A existência de locais de consumo é essencial para se viver e justificar o sistema político e econômico vigente, entretanto, se as iniciativas públicas que busquem incentivar a melhor utilização do espaço público não estiverem compatibilizadas ao crescimento econômico e demográfico, caminharemos em sentido oposto ao da paz urbana. “O desenvolvimento urbano é moral quando ocorre no interesse e em proveito de todos os cidadãos”... (Argan, 19--).  
E se tratando de paz urbana, não se pode deixar de levar em consideração toda e qualquer manifestação coletiva, seja ela de contentamento ou insatisfação.
Tivemos recentemente, pela abertura da  Av. União dos Ferroviários ao trafego de veículos, uma movimentação popular que mostrou descontentamento.
Nunca a avenida teve sua destinação pública modificada, pois ela sempre serviu ao público. De segunda à sábado com trânsito normal e aos domingos e feriados, com trânsito apenas de pedestres, transformando-se e sendo usada por 15 anos como uma extensa área de lazer. Recentemente em favor da iniciativa privada, modificou-se seu uso. Estabelece-se então o conflito.  É urgente pensar a cidade como “uma relação entre corpos e ambientes humanos” (Sennett, Richard – Carne e Pedra). Os meios de Transportes precisam ser revistos e planejados e a relação do homem com os espaços públicos deverá ser valorizada. Os impactos de relegar à segundo plano os espaços de convivência podem ser em curto prazo, sentidos.
O espaço público consolida-se pelo uso e o homem determina seu uso. Cabe aos urbanistas e planejadores a tarefa de prever e administrar os conflitos. Sempre haverá a dualidade de interesses e justificativas aceitáveis de ambos os lados. Hora pelos interesses da iniciativa privada, de caráter consumista e, por outro lado, daquele que usa o espaço como público e que o determina como tal, exercendo a estreita relação do homem com o espaço.
  “A contradição entre o ideal de manter contatos com outros povos, sem discriminações e o sonho de recomeçar tudo, sem o peso do passado, talvez seja inevitável. Mas, na revolução Francesa, a liberdade produziu resultados realmente inesperados... a Revolução mostrou que as multidões se acalmam nos grandes locais abertos para a encenação de seus eventos públicos mais importantes. O espaço da liberdade pacificou o corpo revolucionário.” (Sennett, Richard – Carne e Pedra).

Autores:
Arquiteto Renato Fregnani – membro do IAB Jundiaí
Arquiteta Rosana Ferrari – presidente do IAB Jundiai