“O resultado é o seguinte: a cidade que dizem possui grande parte do que é necessário para existir, enquanto a cidade que existe em seu lugar existe menos. Portanto se quisesse descrever Aglaura limitando-me ao que vi e experimentei pessoalmente, deveria dizer que é uma cidade apagada, sem personalidade, colocada ali quase por acaso. Mas nem isso seria verdadeiro: em certas horas, em certas ruas, surge a suspeita de que ali há algo de inconfundível, de raro, talvez até de magnífico; sente-se o desejo de descobrir o que é, mas tudo o que se disse sobre Aglaura até agora aprisiona as palavras e obriga a rir em vez de falar. Por isso, os habitantes sempre imaginam habitar numa Aglaura que só cresce em função do nome Aglaura e não se dão conta da Aglaura que cresce sobre o solo. E mesmo para mim, que gostaria de conservar as duas cidades distintas na mente, não resta alternativa senão falar de uma delas, porque a lembrança da outra, na ausência de palavras para fixá-la, perdeu-se."
Aglaura é uma das cidades invisíveis de Ítalo Calvino, assim como nossa Jundiaí. Uma cidade multifacetada, apresentando um tecido em rápida e constante mutação, sem se preocupar com a preservação de seu conteúdo histórico que emprestaria ao habitante a noção de partícipe de sua história social. Uma cidade que desconheço a cada ano; num processo de demolição contínua. Suas ruas mudam de nome a cada momento, como se nosso passado não passasse de um fútil presente. Como se nada do que havia tivesse passado por um processo de idealização, planejamento, escolha e referendamento.
Apague-se. Troque-se. É o novo a todo instante. Mas o novo, no passado, levava tempo para ser elaborado, conceituado, amadurecido e... dinheiro não se desperdiçava. Hoje somos todos órfãos. Ao órfão se dá o direito do passado apagado, do medo consistente das perdas, do medo do presente com o símbolo da ausência. Tudo isso acompanhado da ausência total de informações concretas que nos coloquem a verdadeira dimensão dos nossos fazeres.
Simples, pé no chão e mãos à obra. Acorde pela manhã escutando pássaros. É muito gostoso. Como? Sua rua não tem esse valor agregado? Então ligue na Secretaria de Serviços da Prefeitura e solicite sua árvore, peça a que atraia pássaros. Vá caminhar antes do trabalho para manter o coração saudável e amoroso. A calçada está ruim? A conservação é encargo dos proprietários das casas. É ruim brigar com vizinhos? Então junte-se e faça um movimento no bairro*.
Você até poderia andar no Bolão ou Jardim Botânico... mas teria que pegar o carro.Verifique se é possível fechar algumas ruas de seu bairro*. Além de você andar defronte à sua casa, suas crianças poderão voltar a brincar na rua. O arq. Jorge Wilheim propôs isso para São Paulo. Não há necessidade de morar em condomínio fechado. Com menor trânsito interno, e maior nº. de pessoas conhecidas usando o espaço, o índice de violência cai - Ligue na Secretaria do Planejamento.
Com tempo bom, vá de bicicleta ao trabalho. Um excelente exercício, atividade "in", "carbon free". As avenidas que têm rios (Frederico Ozanan, Nove de Julho, etc.), e as ao longo das ferrovias, são as melhores para isso, com menor declividade. A poluição do trânsito, ruído, velocidades são incompatíveis com essa possibilidade? Pelo preço dos ônibus aliado ao valor do salário, algumas pessoas vão trabalhar morrendo de moto ou bicicleta. Vamos nos juntar* para conseguir ciclovias, redução de velocidades e fiscalização em "avenidas de trabalho".
Os nossos rios seriam lindos com sons de água escoando, plantas, locais de estar. Passeando nas margens, ciclistas, pedestres e crianças. Visão idílica. Mas é assim que se constroem cidades. O Guapeva, quando passa pela Ponte Torta começa a encenar essa peça, assim como o córrego da Vila Aparecida e Jardim São Camilo. Cabe a nós, cidadãos, apontarmos os cenários que queremos. Cabe ao setor público analisá-lo e nos responder por que sim ou não com dados, índices e valores - Secretaria de Planejamento e Obras.
Você agora vai para o trabalho? Esperaremos você voltar para comentarmos esse local. Mande um e - mail dizendo onde é.
* fale com um arquiteto de seu bairro - Programa IAB, Arquiteto do Bairro.
Suzana Traldi é arquiteta urbanista formada pela USP, pós-graduada pela USP São Carlos, foi professora da PUCC; Coordenadora do Projeto Arquiteto do Bairro, do Instituto de Arquitetos do Brasil - Núcleo de Jundiaí - IAB Jundiaí.
Texto apresentado no Seminário Arquitetura e Cidade, organizado pelo IAB Jundiaí, em jul./2007.
s.traldi@terra.com.br