Ai que saudade de quando as casas tinham grandes cozinhas. Nada tipo americano, nada importado. Eram cozinhas muito nossas, made in Brasil com “S”. Cozinhas com uma bela janela voltada para o jardim e com uma mesa no centro para que toda a família pudesse ficar esperando bolinhos de chuva serem passados no açúcar com canela.
Ai que saudade das varandas bem cuidadas, dos vasos de samambaia pendurados na parede, das violetas enfileiradas na mureta, do quintal “da frente” com roseiras e do quintal “dos fundos” com o canil.
Ai que saudade de quando o arquiteto era como o médico da família. Afinal de contas, não se entrega a concretização de um sonho para o arquiteto-mais-importante-da-cidade ou para o arquiteto-que-mais-tem-seus-projetos-na-revista, mas para o arquiteto-que-a-gente-acha-que-é-mais-importante. Como era bom o voto de confiança. Como era bom ter o sonho da casa, um sonho que temos desde criança ser feito como realmente deveria: com a cara dos NOSSOS sonhos. Uma casa boa para revenda? Não, definitivamente não. A melhor solução não é regida pelo mercado, ela é regida por nossas vontades.
E o pedreiro? A primeira coisa que tenho saudade é de que antes a gente sabia nome dele, da mulher e de suas crianças. A relação humana de uma obra era muito mais... humana.
Ai que saudade de quando tínhamos um problema na construção e, ao invés de discutirmos e pesquisarmos quem errou, tratávamos de reverter a situação a nosso favor. Quantos erros viraram boas soluções? Para que escondermos as imperfeições? O que seria da linha reta se não existisse a tortuosa? E não é uma delícia saber que o homem não é perfeito? Eu, particularmente (e eu adoro pensar particularmente), acho. A vida era mais calma, sem correria. As soluções vinham e o mais gostoso era o como a desenvolvíamos.
Ai que saudade de quando as casas eram todas “personalizadas”, com a cara dos donos. Nenhuma revista era capaz de influenciar a dona da casa que sempre desejou tê-la na cor azul-anil. A cidade das minhas memórias era mais colorida, vibrante e pessoal.
Ai que saudade de quando o arquiteto, para trabalhar, precisava apenas de papel, lápis, uma cabeça que pensa e o mundo que o rodeia.
Papel branco, livre de pré-conceitos, sem amarras passadas, pronto para receber. Receber tudo.
Lápis, ferramenta, suja, borra, esboça imperfeições, concorda, discorda.
Idéia, proposta, ação, reflexão, visão de mundo, vontade, desejo.
O trabalho do arquiteto é severo porém não solitário. Engana-se quem pensa somente em uma sala branca, folhas, grafite e um ser pensante. Junto dele está o mar azul, sol ardente, areia branca ou talvez uma lareira, fondue, montanha com pico encoberto de neve vista por uma envolvente janela. A fantasia não nos deixa só, nem por um minuto, nem por um segundo. Muito pelo contrário, nos leva lembranças, vários amigos, alguns inimigos, a mais inesquecível garota do colégio, uma música antiga e principalmente a idéia de um mundo um pouco mais justo e mais humano, mais gentil, apresentando-se com um suave ‘bom dia’ e despedindo-se com um ‘boa noite’ doce e verdadeiro.
Ai que saudade da minha cidade, aquela com a minha cara.
Mas essa cidade está aí. Ela está aí porque tem alma. Alma formada pelos que ontem passaram e amanhã passarão. Alma que só é alcançada quando traduz e expressa sua história por meios que vão de espaços físicos e urbanos a morais. Alma que tem que se aliar ao tempo, não pode tentar combatê-lo, e, mesmo que não apresente intensidade uniforme ao decorrer dos anos, tem de estar sempre acesa. A minha cidade, sem dúvida, tem alma. Guardada talvez, mas existente.
E tudo isso faz a gente realmente aprender que somos fortes e que podemos ir muito mais longe depois de pensarmos que não podemos mais nada. Faz a gente ter certeza que essa saudade só nos acrescenta. Afinal, a cidade, a casa ou mesmo o seu quarto não são somente espaços físicos, mas representações de coisas nossas, quase como um canto onde está instalada uma usina do imaginário. E apoderar-se desse imaginário faz brotar sua própria imagem, pois os lugares só ganham importância à medida que possam ser recipientes de lembranças, boas e más. E é por isso que dá saudade, o se dá...
Autor:
Antonio Fabiano Junior é arquiteto e urbanista, formado pela FAU – PUC Campinas, mestrando da FAU – USP, associado do Instituto dos Arquitetos do Brasil - IAB, Núcleo de Jundiaí;
antoniofabianojr@terra.com.br