Quem viu o filme do diretor alemão Wim Wenders, O céu que cobre Berlim (Der Himmel uber Berlin), rodado em 1987, dois anos antes da queda do muro de Berlim e tenha ficado impressionado em ver que 40 anos depois da segunda guerra, grandes áreas do centro da cidade e em especial a zona de Postdammer Platz eram ainda um acúmulo de ruínas, deveria revê-la agora, em 2007.
Berlim hoje é a capital da Alemanha, unificada de forma tão natural que parece sempre ter sido assim. A cidade é o maior canteiro de obras da Europa. Os quarteirões se modificam em seus aspectos e na sua estrutura, com novas construções e com estimulante evolução, oferecendo aos grandes arquitetos contemporâneos a possibilidade de realizar todas as suas fantasias construtivas.
As maravilhas da arquitetura do século XXI que afloram em Berlim fazem com que a cidade se exprima em uma linguagem complexa, sinfônica! Alguns dos projetistas como Sir Norman Foster com o edifício Reichstag ; Peter Eisenman com o monumento ao Olocausto ; Frank O. Gehry com o DZ Bank Haus am Pariser Platz 3; Josef Paul Kleihues com os pojetos Hofgtarten e Triangel ; Jean Nouvel com a Galeries Lafayette; Philip Johnson com Philip-Johnson-Haus ; Helmt Jahn com o projeto da Sony; Daniel Libeskind com o Museu Hebraico; Santiago Calatrava no Oberbaumbrucke e entre esses, não poderiam deixar de participar os italianíssimos Aldo Rossi que trabalhou no Quartier Schutzenstrasse, Renzo Piano com Daimler-Chyisler, Sede Administrativa da Debis, Cinema IMAX, Musicaltheater , Casinó e Giorgio Grassi com Park Kolonnaden.
Apesar deste excepcional panorama de arquitetura contemporânea, para nós brasileiros é importante lembrar a reconstrução de Hansaviertel - 1953-1957, bairro que cresceu à margem oeste da zona de Tiergarten, não muito longe do centro histórico e coração de Berlim, construído com uma arquitetura aristocrática, foi quase totalmente destruído durante a guerra. Com a reconstrução de Hansaviertel surgiu uma oportunidade que foi vista logo como uma ocasião única para rivalizar com a doutrina de Stalin. Ocorre que ao final da guerra, até os anos sessenta, a cidade sofreu uma profunda separação culminando com o muro de Berlim. Desta forma a cidade foi dividida e se acentuaram dois modelos de urbanização.
Já em 1953 foi realizado o concurso para projetar o novo bairro Hansaviertel e em 1957 uma mostra de arquitetura internacional foi aberta, com prestigiosos participantes, representantes da arquitetura moderna, entre eles o brasileiro Oscar Niemeyer. O novo bairro deveria exalar os valores da democracia e do pluralismo político. Mas a conclusão do júri não foi positiva especialmente no campo da urbanística. Afirmavam que a reconstrução do bairro alterou profundamente a sua estrutura original, causando no plano projetual uma falta de coordenação entre os arquitetos.
Mas ....nos enchemos de orgulho em saber que por parte do júri o projeto de Niemeyer para Hansaviertel foi reconhecido como um dos mais interessantes e o edifício construído com o maior nível de profissionalidade. Hoje, quarenta anos depois, o edifício familiar de Niemeyer no bairro "Hansa" erguido próximo a construções de Alvar Aalto, Walter Gropius... concede à delicada colina de Tiergarten um sabor tropical à Berlim. A "descoberta" deste edifício dentro de um verde europeu quase nórdico infunde alegria e satisfação por um Brasil orgulhoso da sua arquitetura e do seu desenvolvimento.
Visitar Berlim e não ver a obra de Niemeyer, para um arquiteto brasileiro, é imperdoável. As cores, as formas, a plástica, a integração de arquitetura e flora......são a marca inconfundível, tropical, de um projeto sinuoso, formalista, desejável, cheio de prazer. É certamente a Berlim do século XXI que protagoniza também o exemplo da arquitetura moderna brasileira de Oscar Niemeyer.
Leandra Pozza é arquiteta e urbanista, especialista em restauro e preservação do patrimônio histórico-cultural, atualmente trabalhando em Firenze - Itália, associada do Instituto de Arquitetos de Brasil, Núcleo de Jundiaí - IAB Jundiaí.
pozza_elle@libero.it.