27/03/2007 -O “legado” da Arquitetura Moderna Brasileira

O Brasil foi descoberto duas vezes, a primeira no século XV pelo navegador português Pedro Álvares Cabral e a segunda em 1942 pelo crítico norte americano Philip Goodwind que percorrendo o país, recolheu uma grande quantidade de material para a mostra de arquitetura brasileira que seria realizada no ano seguinte no Moma de New York. Este feito mostrou que no final dos anos Quarenta e início dos anos Cinqüenta, arquitetos e críticos já tinham um olhar voltado para o Brasil, colocando este em uma nova “geografia internacional” da arquitetura, agora o igualando aos países industrializados.
A mídia especializada em crítica e aos eventos culturais tiveram uma importância fundamental na divulgação das diversas pesquisas tecnológicas e nas novas ‘experiências’ projetuais realizadas pelos arquitetos modernos brasileiros.
Revistas estrangeiras tais como Domus, Casabella Continuità, l’Architettura: Cronache e Storia, l’Architecture d’Aujourd’hui e The Architectural review transformaram-se em instrumento chave para inflamar polêmicas e divulgar as novas idéias implícitas desta linguagem arquitetônica.
As várias revistas puderam revelar à toda comunidade européia, o renascimento da arte construtiva no outro lado do oceano; agora com sabor tropical. É verdade que já haviam sido publicadas, merecidamente, obras brasileiras que segundo alguns críticos indicavam esta arquitetura como uma via genial e brilhante, ao asfixiante racionalismo europeu.
O resultado do desenvolvimento tortuoso da arquitetura moderna brasileira influenciou de forma direta o projetar, no final da segunda guerra, tanto para a européia como para a americana, proporcionando-lhes um impulso vital e audacioso.
Com palavras sucintas posso esclarecer que por volta de 1930 se encontravam em terras brasileiras três correntes arquitetônicas opostas e significativas, uma européia personificada por Le Corbusier, outra norte americana, pelo organicismo de Frank Lloyd Wright e finalmente uma autóctone, neocolonial.
Os arquitetos brasileiros e estrangeiros que representam o “legado” da arquitetura moderna brasileira, nos anos Cinqüenta são inúmeros e infelizmente estas linhas são escassas para honrar cada um deles, portanto evito enumerá-los faltando ao respeito à grandiosidade de tais figuras.
O importante é deixar claro que nestes anos de desenvolvimento o Brasil envolveu os arquitetos em um fervor “verde-amarelo” contagiando o ambiente internacional. O reconhecimento no final da segunda guerra não é de nenhuma forma, limitado a um único arquiteto ou projeto, mas se estende a formar um panorama arquitetônico que investe na realidade produtiva de um país inteiro.
A respeito do específico contato entre Brasil e Itália é vital citar a segunda geração de profissionais italianos no Brasil a partir dos anos Trinta até Cinqüenta, citando apenas alguns desses arquitetos: Marcelo Piacentini, Daniele Calabi, Lodovico Bergiojoso, Ernesto Nathan Rogers, Lina Bo Bardi, Gio Ponti, Píer Luigi Nervi, Bruno Zevi... As revistas italianas, através de artigos escritos por críticos e intelectuais, citaram alguns aspectos fundamentais da arquitetura moderna brasileira e são testemunhos da complexidade destas características e elementos. Mesmo que estas revistas específicas não tenham sido claras o suficiente, o auge deste interesse ocorre com a direção de Domus por Gio Ponti, Casabella Continuità por Ernesto Rogers e l’Architettura: Cronache e Storia pelo grande teórico italiano Bruno Zevi, acrescentando a estes anos a grandiosa exposição sobre a Arquitetura Moderna Brasileira realizada na cidade Roma em 1954 que pôde expandir de forma muito abrangente a nossa arquitetura na Itália.
Certamente a fugaz, mas brilhante escola brasileira deixou um traço profundo no quadro geral da arquitetura contemporânea. Na Itália em especial, o “legado” desta arquitetura, pode ser visto através de alguns exemplos em Milão, nas obras de Gio Ponti, dos associados BBPR e no Vêneto por Daniela Calabi, talvez o mais autêntico, mesmo que em tom menor, mas possivelmente o mais genuíno representante da moderna arquitetura brasileira na Itália.

Leandra Pozza é arquiteta e urbanista, especialista em restauro e preservação do patrimônio histórico-cultural, atualmente trabalhando em Firenze – Itália, associada do Instituto de Arquitetos de Brasil, Núcleo de Jundiaí – IAB Jundiaí
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