28/08/2007 - Quem foi Le Corbusier?

Deixar-se transportar a uma impiedosa época de beleza, figuras e desenhos que marcaram o nosso modo de pensar e de viver não é difícil, ao contrário, é prazeroso. O perfil do personagem que talvez mais de qualquer outro influenciou a arquitetura do século XX, criando fronteiras e saturando-a de genialidade e de contradições está profundamente ligado ao Brasil. O país tropical foi terreno fértil para as teorias do arquiteto Le Corbusier, que nos trouxe razão e iluminismo, induzindo com naturalidade  opiniões, sermões, incentivos.

O arquiteto Lúcio Costa já o havia conhecido na sua primeira viagem à América Latina em 1929 e depois no seu retorno em 1936. Nesse ano o Ministro Gustavo Capanema, Governo Getúlio Vargas, teria convidado Le Corbusier para uma série de palestras no Rio de Janeiro, um convite que se tornaria mais tarde uma consultoria para dois projetos cariocas, o Ministério da Educação e Saúde  (MES) - o marco da arquitetura moderna brasileira - e a Cidade Universitária do Brasil (CUB).

É muito fácil ligar de forma decisiva a teoria lecorbusiana a nós brasileiros. O mais difícil é compreender quem era o “mestre” Le Corbu e quantos indivíduos compunham a sua personalidade, quantos Le Corbusier existiram.

Anagraficamente só um: Charles-Edouard Janneret-Gris, nascido na Suíça, em La Chaux-de-Fondes, em 6 de outubro de 1887. Culturalmente muitos outros: racionalista severo e humanista apaixonado; teórico do cimento armado e desenhista de móveis; autodidata em luta contra os acadêmicos, intelectual projetista de condomínios populares quase a tocar o limite da lógica concentracional e um poeta fluido. Tudo e o contrário de tudo, aparentemente. Viajante que perscrutou as terras mais diversas e sempre em tensão, tangenciou uma fronteira extraordinária, sempre a insígnia de um culto incomensurável de si mesmo.

 Podemos afirmar que ele tinha a capacidade primordial do arquiteto “águia” de observar a realidade que para um projetista é a chave realizadora de um bom trabalho: “olhar, observar, ver, imaginar, inventar, criar”, esta era a teoria que ele mesmo pregava nos últimos anos da sua vida. Como ele mesmo dizia: “Eu sou um asno que tem olhos. Trata-se de olhos de um asno que tem a capacidade da sensação. Sou um asno com o instinto da proporção. Sou e estou um visionário impenitente”.

É impossível resumir, nessas poucas linhas, o percurso criativo que delimita a carreira de Le Corbusier. É uma complexa atividade arquitetônica reunida entre as mais diversas técnicas artísticas: projetos de edifícios construídos, outros tantos não construídos, projetos urbanísticos, pinturas a óleo, afrescos,  litografias, tapeçarias, esculturas, móveis, livros, desenhos!

É o mentor de uma arquitetura grandiosa, inquietante, que teorizou os cinco pontos fundamentais da arquitetura moderna: planta e fachada livres, pilotis, janelas horizontais e terraço-jardim. Como podemos constatar, conhecer a arquitetura de Le Corbusier é conhecer a nós mesmos, porque é uma arquitetura que nos é familiar, doméstica, intercostal, basta observar as linhas geométricas nas nossas cidades.

Nos dias de hoje, onde a simplicidade e o minimalismo da arquitetura é um objetivo do projeto, o “mestre” suíço já realizava com naturalidade há sessenta. setenta anos atrás. Mas qual foi o percurso formativo de Le Corbu?  Iniciou como ourives na cidade natal. Aos 23 anos começou a fazer parte da Escola de Artes Aplicadas de La Chaux-de Fonds. Depois, durante nove anos intercalou viagens entre a Europa e o Oriente Médio, com trabalhos no Estúdio de Arquitetura do austríaco Josef Hoffmam arquiteto ativo do movimento de vanguarda Secessionista ou Art Nouveau; com o francês Auguste Perret, o pai do cimento armado e finalmente com o alemão Peter Behrens, figura pioneira da arquitetura moderna. Neste estágio, sua carreira decolou e as experiências tanto no campo da arquitetura quanto das artes não tiveram mais trégua.

Foi este caminho que levou Charles-Edouard Janneret-Gris a ser uma figura influente na arquitetura? Não, penso que não seja só isto, talvez alguma coisa a mais: a sua genialidade e  capacidade de síntese que o levou a ser para o mundo ´Le Corbusier´.

Leandra Pozza é arquiteta e urbanista, especialista em patrimônio histórico, mora e trabalha em Firenze - Itália; é associada  do Instituto de Arquitetos do Brasil, Núcleo Jundiaí - IAB Jundiaí
pozza_elle@libero.it