30/10/2007 -Calçada

Por lá, sentados no banco da calçada, como quem não quer nada, vendo a cidade passar, conversa que rola solta, começa um assunto que parece encerrar em si: sobre gelosia; janela de rótula, muito empregada na arquitetura colonial, constituindo-se de painel formado por treliça de madeira para vedar as janelas. Lembra-se do muxarabi, muxarabiê, balcão também fechado em toda sua altura por painéis de treliça de madeira, donde se pode ver sem ser visto; elemento de influência da arquitetura árabe em Portugal, trazido para o Brasil, foi muito utilizado nas construções do período colonial em São Paulo e outros estados. No início do século XIX, esses elementos foram proibidos pela legislação, por serem considerados remanescentes da arquitetura ultrapassada; e a partir dos meados do século XIX, foram sendo substituídos pela veneziana, grades de ferro e vidraças. Além dessas referências das definições e mecanismos de funcionamento: articulação em torno de eixo vertical; às vezes móveis, sua inclinação sendo feita com auxílio de travas de madeira; algumas vezes ocupavam somente parte do vão etc.; o assunto se fixou sobre que esses painéis permitiam a visão do interior do prédio para o exterior, sem possibilitar visão contrária; isto estava vinculado à idéia de que as mulheres teriam o contato com o mundo externo através dessas janelas, vendo sem serem vistas; sem se conferir a veracidade dessas idéias, o assunto avança; talvez gelosia estivesse relacionada à palavra “Celosia” (crise de ciúmes em espanhol); também ciúme em italiano (“gelosia”); ou francês (“jalousie”); o que teria a ver com o ciúme dos maridos por suas amadas etc. e tal.
Na calçada, espaço público, por lá tudo ocorre, dentro do bom convívio dos cidadãos, outros se juntam à discussão; e começa a se falar sobre o projeto de uma casa; a idéia recorrente é que a planta é a interpretação do arquiteto sobre um desejo (do cliente) que reflete a forma de viver de uma determinada época; a participação do usuário é peça chave no processo de concepção. Passa-se por categorias de plantas; essas estão vinculadas à distribuição das funções (estar, serviço, descansar) dentro da residência: o tipo “passeio”; a caixa fechada; a sala de estar central; a separação das áreas funcionais (a planta racional); a planta orgânica; a planta fluída; a planta circuito; a planta flexível (espaço funcional neutro). Conversa-se um pouco sobre o projeto contemporâneo das residências. Estudos evidenciam que não há um projeto único como outrora; as demandas dos usuários são diversas; ainda, esses desejam plantas flexíveis e fluídas, que possibilitem adequações com as novas necessidades que ocorrem com maior intensidade.
A turma da calçada cresce, agora, discutindo-se a boa forma de morar, chega-se á cidade, a importância do acesso da rua á residência; as tipologias desses acessos: exterior, interior; vertical; horizontal; dual; o escalonamento do espaço público ao privado: público, semi-público, privado.   
E quem passa, por lá fica, e quer arriscar uma opinião; o grupo de discussão fica cada vez mais animado; não se distingue o arquiteto do usuário, pois todos estão na calçada, são cidadãos e têm direito de voz. Começa a se perceber que a calçada já não mais comporta, por ser estreita; no entanto, ali perto, onde poderia haver um pequeno largo, para abrigar esse desejo de debater a cidade, esse espaço é apenas uma sinalização no chão, que a todo  momento é invadido por carros; deixa de ser um lugar com identidade, para permanecer como espaço residuário.
No aperto da calçada, o assunto se enreda justo por aí: que em Jundiaí não se pensa no pedestre; na alternativa de se ganhar a cidade a pé.
Na calçada, espaço público de manifestação coletiva, é colocada a falta de debate sobre a cidade e seus destinos; por uma visão rodoviarista, em que prevalece o carro sobre o direito do pedestre, cada vez mais se acaba com a Praça da Bandeira; e o Córrego do Mato (Av. Nove de Julho) será tamponado para a abertura da  terceira via. Jundiaí não esta participando da 3ª. Conferência das Cidades, do Ministério das Cidades, por decisão unilateral da Prefeitura, esquecendo-se que a cidade não tem partido.

Liane Makowski Almeida é arquiteta; é vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, Núcleo de Jundiaí – IAB Jundiaí
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