31/07/2007 - o projeto e o futuro

Estamos vivendo no Brasil um momento importante de prosperidade econômica. Dólar caindo, juros caindo, compras aumentando, facilidade de financiamentos, e a construção civil crescendo como há muito tempo não se via. Os jornais estão cheios de propagandas de apartamentos e, na nossa cidade, há uma grande demanda de lotes e construtores para residências levando a valorização dos imóveis por se tornarem opção de investimento.

Temos o PAC, plano de aceleração do crescimento com a meta de aplicar dinheiro em muitas áreas da economia, inclusive na construção civil. Porém, apesar de todos os alardes sobre seus benefícios, são freqüentes as matérias nos jornais comentando a dificuldade da aplicação do dinheiro do PAC por falta de projetos em condições de execução. Qual a causa desta falta de projetos?

O termo atual é apagão. Temos um apagão de projetos? Pensando um pouco mais, vemos isso ocorrendo no controle aéreo, na geração de energia, no trânsito de São Paulo está se tornando insolúvel (apagão no trânsito ou no transporte), enfim, ainda poderíamos enumerar muitas outras áreas onde o Brasil tem problemas e não há solução a curto prazo.

Por quê? Falta de projetos é a resposta importante. Projetos para resolver o futuro e não para valorizar um mandato político, projetos atendendo as necessidades da população, projetos acima das disputas políticas e encarem do ponto de vista técnico o melhor para País. Existem exemplos no Brasil e muitos nos Países desenvolvidos onde uma agência ou um instituto é criado para desenvolver projetos e levá-los para governo executar. Trabalhos são desenvolvidos tecnicamente para fazer o melhor para o interesse público, principalmente a longo prazo.

Seus funcionários são escolhidos a partir de sua capacidade profissional e ali se desenvolvem em carreiras para atender tecnicamente os problemas trazidos pelo crescimento das cidades e da população, muito diferente do que temos visto no Brasil onde os profissionais dos governos (Federal, Estadual e Municipal) são substituídos a cada troca de mandato para atender interesses políticos. É claro que há exceções, mas elas vêm diminuindo ano a ano.

Outro ingrediente induzindo ao descuido com os projetos para o futuro é o comportamento da sociedade de consumo frente à oferta de produtos personalizados expostos nas lojas. Naturalmente costuma-se encontrar um produto que atende as necessidades. Porém, algumas coisas não podem ser compradas em forma de produto porque precisam ser criadas, pensadas ou desenvolvidas para atender uma situação única. O projeto da residência para uma determinada família é único, o projeto de uma rodovia também, o plano de crescimento de uma determinada cidade, assim como o futuro de um País. Isto é planejar, projetar. Demandam conhecimento, pessoas que estudam para isso e acumulam experiência durante uma vida dedicada a esse fim.

O desinteresse do Governo por projetos é nítido. Alguém vê com freqüência nos jornais e TVs arquitetos ou engenheiros falando sobre projetos futuros de desenvolvimento? Na revista Veja de 20 de junho último há uma matéria sobre a crescente busca pelo emprego público. Uma tabela mostra que, na média, os salários dos profissionais trabalhando para o Governo são mais altos que os da iniciativa privada, exceto para os engenheiros e arquitetos que ganham menos trabalhando para o Governo.

Para os médicos também não é muito diferente, os salários médios são similares, mas para os demais, o governo paga de uma vez e meia a duas vezes mais. Outro profissional não presente na tabela e não valorizado pelo governo é o professor que ganha menos nas escolas públicas. Escrever sobre esta comparação não tem o objetivo de comparar profissionais, pois todos os profissionais têm valor nas suas áreas e todas juntas fazem uma sociedade, que nossos governantes estão sendo negligentes com o nosso futuro está claro. Além dos profissionais que ganham mais no Governo, precisamos de professores ensinando nossos filhos, de médicos cuidando de nossa saúde e de arquitetos e engenheiros projetando a construção do País.

Alexandre Panizza é arquiteto e urbanista, graduado na FAU/PUC Campinas e mestre pela UNICAMP; professor de Informática Aplicada; associado do Instituto de Arquitetos de Brasil, Núcleo de Jundiaí - IAB Jundiaí.
alexpanizza@yahoo.com.br